Nunca conquistados<br>e de novo levantados

António Santos

«Kama apyejy! Kama apyejy! Kama apyejy!» Nas montanhas de Juárez, no Estado mexicano de Oaxaca, só os mais velhos se lembravam de ouvir o antigo grito de guerra do povo Mixe. São estas palavras que desde o massacre de 11 professores em Nochixtlán se juntaram à torrente humana de um protesto que já não é só dos professores de Oaxaca para ser também dos indígenas, dos trabalhadores e dos ofendidos e excluídos de todo o México que vêm recordar ao governo, num só e tremendo brado, a lição da História: «Nunca conquistados! Nunca conquistados! Nunca conquistados!», gritam hoje os povos indígenas, como há quinhentos anos.

Onze mortos, vinte e sete detidos, vinte feridos, cinco desaparecidos: eis um massacre que não reclama sanções democráticas nem guerras humanitárias. Perante o desinteresse das potências mundiais e 21 meses depois do desaparecimento de 43 estudantes da escola de educação de Ayotzinapa, o Estado mexicano voltou a disparar contra a luta dos professores da escola pública.

Os docentes de Nochixtlán, convocados pela Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE) protestavam contra o salários em atraso e contra a Reforma Educativa, que dirige contra 1 200 000 professores, os ditames da mais ampla Reforma Laboral posta em marcha pelo governo de Enrique Peña Nieto. Para além do despedimento imediato de 30 por cento de todos os professores e do encerramento de centenas de escolas, esta medida prevê cortes no sistema de segurança social, põe fim à antiguidade na profissão e ameaça a contratação colectiva, retira dias de férias pagos, coloca graves restrições à liberdade sindical e institui a precariedade nas escolas.

As veias abertas de Nochixtlán

Se os impactos da Reforma Laboral e da sua aplicação educativa têm sido brutais em todo o México, no Estado de Oaxaca encontram uma expressão especialmente dramática. Com o índice de desenvolvimento humano mais baixo de todo o México, Oaxaca é também o mais indígena. Os 16 grupos étnicos de Oaxaca, que falam mais 20 línguas, nunca tiveram direito a estradas, hospitais, habitação social ou saneamento básico. Só conhecem o Estado mexicano pela repressão policial. A excepção que resta à regra é a escola pública, a que os povos de Oaxaca hoje se agarram com a vida.

Professores e populações responderam à violência do Estado com manifestações, cortes de estradas e ocupações das principais cidades e vilas de Oaxaca, obrigando multinacionais como a Walmart ou a Burger King a suspender a actividade no Estado. Também na Cidade do México, este domingo, centenas de milhares de pessoas responderam à convocatória do ex-candidato presidencial Andrés Manuel López Obrador e exigiram respeito para com os professores.

Violação endémica de direitos humanos

Este fim-de-semana, o secretário do governo, Miguel Ángel Osorio Chong, deu o braço a torcer, reconhecendo a CNTE como um legítimo interlocutor do governo. Com pompa e circunstância, Chong anunciou a libertação do dirigente sindical Rubén Núñez, preso no cárcere de Hermosillo, para facilitar o início das negociações. No entanto, segundo o delegado da secção 22 da CNTE, César Martínez, tudo não passou de uma simulação: «Fomos de boa-fé para este diálogo, mas aparentemente, o governo em vez de abrir caminhos reais limita-se a fazer simulacros. Perante este cenário, o povo tem a palavra», concluiu.

Com efeito, confirmando a lapidar tese do secretário de Educação Pública, Aurelio Nuño de que «o governo não tem nada para oferecer», a repressão continua, como demonstra o assassinato, esta semana, do radialista comunitário Salvador Olmo García, em Huajuapan de León, Estado de Oaxaca. O seu nome tal como os dos 11 professores assassinados ou os dos 43 estudantes normalistas desaparecidos permanecerá provavelmente anónimo na comunicação social da classe dominante, tão preocupada com os direitos humanos, a liberdade de expressão e a democracia... nos países onde dá jeito.




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